Romero Rodrigues: “Os grandes retornos estão na intersecção de algo que não é consenso e na capacidade de acerto dos investidores”
venture capital
9 min
30 junho 2021

Romero Rodrigues: “Os grandes retornos estão na intersecção de algo que não é consenso e na capacidade de acerto dos investidores”

Sócio da Redpoint eVentures, gestora de fundos pioneira no investimento em startups no país, Romero Rodrigues é uma das principais referências do ecossistema de empreendedorismo digital e da indústria de venture capital nacional. Em entrevista concedida ao blog do Learning Village, ele comenta sobre os impactos do cenário atual para investidores e empreendedores, desafios de diversidade e inclusão e a ascensão do corporate venture entre as organizações brasileiras.  

O que faz com que um investidor aposte em fundos early stage? E qual é o rendimento de um bom fundo?

Historicamente, desde a década de 60, 70, quando o venture capital ainda era restrito à região de Boston e ao Vale do Silício, geralmente eles eram de fundos de pensão e, às vezes, de famílias muito ricas. Eram investidores mais preparados que buscavam um retorno maior e não precisavam ter liquidez, são fundos de 10 anos. De 2012 pra cá, muita coisa mudou. As companhias de tecnologia se consagraram e, durante a pandemia, atingiram recordes históricos.

No caso do brasileiro, especialmente, tivemos nesse mesmo período uma queda brusca nos juros, como nunca havia acontecido antes. Na hora em que os juros foram para a casa de 2%, o investidor percebeu que precisaria correr um pouco mais de risco ou ter menos liquidez, se quisesse mais retorno. E isso aconteceu combinado com o momento em que as startups brasileiras estão se tornando unicórnios. É uma tempestade perfeita, com todos os ingredientes pra que o investidor procurasse esses ativos. Um bom fundo de venture capital nos EUA costuma dar algo entre 20 e 25% de retorno ao ano. Na hora que você põe isso ao longo de 10 anos, um investidor que coloca um milhão, por exemplo, retira 5 ou mais.

 Na sua opinião, o Marco Legal das Startups também vai ajudar a alavancar novos investimentos?

Eu acho que vai, porque ele traz um pouco mais de tranquilidade principalmente para o investidor anjo. A pessoa física tem um pouco mais de segurança jurídica hoje e isso sem dúvida ajuda muito na captação inicial, “family, friends and fools”, porque esse cara precisava correr um risco assimétrico, ele colocava 50, 100 mil reais que poderiam virar pó e ele estava ok com isso. O problema é que ele podia perder todo dinheiro que tem se a startup tomasse um (processo) trabalhista e o juiz arrolasse ele.

Venture capital é muito sobre em investir em pessoas. Porém, alguns estudos acabam mostrando que esse ciclo perpetua os iguais, os caras que saíram da USP, Stanford, Harvard. Como ter mais diversidade nesse sentido?

Para entender isso precisamos olhar pra trás. Montar uma startup em 2000, quando eu estava no Buscapé, tinha uma coisa em comum no mundo inteiro: todos os fundadores eram engenheiros elétricos. E por que isso? Porque não tinha nada pronto, nem Google Analytics, nem PayPal, você tinha que montar o servidor, não tinha Cloud, celular, nada… Era uma coisa super geek, era praticamente impossível um grupo de empreendedores que não tivesse esse background técnico conseguir montar uma startup, muito menos levantar dinheiro. Então, esse era um gargalo, um outliner.

Ao longo desses 20 anos, foram construídos vários tijolinhos, todos esses blocos estão todos prontos. Hoje não precisa ter nenhum fundador com background técnico, a menos que seja algo de tecnologia de fronteira, de universidade. Então, acho que isso tende a mudar. E no lance dos investidores é a mesma coisa, uma parte vem do mercado e grande parte são ex-empreendedores acostumados com o que acontecia lá atrás, na escola de engenharia. Dito isso, apesar da foto hoje não ser boa, o filme é bom.

Um bom investidor de venture capital tem que tentar fazer projeções do futuro, mas a mente humana não trabalha na velocidade da tecnologia exponencial. Como equalizar isso? Dá pra ter uma ideia do mundo daqui a dez anos?

Olha, não é um trabalho fácil, você precisa ter um time de investimentos que goste de discutir teses, não consensos. Os grandes retornos estão na intersecção de algo que não é consenso e na capacidade de acerto dos investidores. O consenso, aquilo que todo mundo tá olhando, provavelmente não vai ser um retorno tão bom, muita gente vai investir junto e vai ter muita competição naquele espaço. O nosso negócio é altíssimo retorno, então é melhor você correr o risco de estar errado em coisas consideradas absurdas, mas acertar o não consenso, porque aí só você extrai o valor daquele investimento.

É mais uma arte do que uma ciência, temos que observar pra que lado o mundo está indo e permitir dar errado uma parte do nosso dinheiro, tem que ter essa resiliência. A gente investe em 20, 30 empresas, se soubéssemos qual iria dar certo mesmo, investiríamos apenas em uma. Mas, se perdemos 1/3 das empresas em que investimos, ainda conseguimos o rendimento previsto de 25%. E quando a gente acerta, chega a ganhar 100 vezes, 500 vezes o valor do dinheiro.

A pandemia revelou ou evidenciou setores propensos ao sucesso e vemos unicórnios surgindo em áreas da saúde, por exemplo. Que outras áreas você detecta como promissoras?

O espaço de venture capital deu uma pausa, um respiro, no segundo trimestre do ano passado, quando explodiu a pandemia, porque ninguém que acha que sabe o que aconteceria em dez anos, inclusive a gente (risos), sabia o que aconteceria em dez dias. Mas ele voltou com força total já no terceiro tri de 2020 e segue com força total dos dois lados. Tem muita startup surgindo e muito investidor faminto. É um cenário muito positivo, como nunca visto antes. Mas, parte do não consenso é saber fugir desse movimento de manada.

De 2014 a 16, tudo girava em torno de fintechs, todo mundo se fantasiava de fintech quando podia. E, pro bem e pro mal, teve muito capital. Aí, veio a onda de health que a COVID-19 acelerou ainda mais, o próprio portfólio da Redpoint nessa área está crescendo cinco, seis vezes ano. A área da saúde segue promissora em vários mercados, na saúde feminina, mental… Mas temos que ver outros mercados também. Meu último investimento, por exemplo, foi na CondoConta, uma fintech especializada nas dores de condomínios, são quase 450, 500 mil PJs que circulam 30 mil reais de depósitos por mês. Se você faz a conta, o mercado é gigantesco.

Muitas empresas grandes vão ter que adotar o ESG. Esse movimento deve ser observado nas startups?

Você tirou meu trovão (risos). A bola da vez vai ser mesmo o ESG – principalmente no E e, principalmente, nos provedores de soluções ESG. Posso dar alguns exemplos do nosso portfólio: a Repassa, uma startup que ajuda a resolver dores da moda, a segunda indústria mais poluente do mundo; e a eureciclo, uma solução de logística reversa. Nos próximos dez anos, essas empresas vão pegar um vento muito grande, porque a demanda é dada. Quem conseguir fornecer essas soluções vai sair ganhando.

Por que tantas empresas têm apostado ultimamente em CVC, aliás?

O mundo está cada vez mais difícil e mais veloz, e as empresas nesse espaço estão tentando aprender como vivem, como sobrevivem. Você pode criar uma área de inovação, investir em startups, contratar serviços de startups, tem N coisas que pode fazer, inclusive para impactar em PR. Em diferentes graus, a empresa pode criar um fundo ou investir em um fundo de venture capital. Como regra, mesmo se ela resolver fazer tudo, é um seguro muito barato, se você gastar 1, 2, 3, 4% do seu balanço comprando esse seguro pra poder existir daqui a cinco anos, é um ótimo negócio.

Renata Piza

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